Paloma da Silveira Leite
Especialista em Design de Aprendizagem, EDTech, Redatora e Storyteller. Professora de Língua Portuguesa. Mestra em Literatura e Crítica Literária - Pontifícia Universidade Católica de SP.
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Sócrates, filósofo grego, acreditava que o papel do educador não se limitava a transmitir o conhecimento, mas oferecer aos alunos meios para que buscassem a verdade e, a partir dela, eles pudessem desenvolver um senso crítico por si mesmos. Como ferramentas de ensino, usava de questionamento, diálogo e autoconhecimento. Ele não deixou nenhum registro escrito de seus ensinamentos, mas era alguém que inspirava a ponto de ter discípulos para transmitirem seu legado – como “um tal de Platão”, a quem é de se supor, devido ao seu brilho, que não coube o mero papel de um escrevente ipsis litteris do que o mestre dizia.
Deixemos a Grécia do século V a. C. e saltemos para a sociedade digital do século XXI. É inegável que o avanço das tecnologias de informação e comunicação exige uma reinvenção da educação. As ferramentas digitais, especialmente a inteligência artificial (IA), têm permitido – e exigido – novas formas de ensino, aprendizagem e avaliação, além de possibilidades inéditas de atuação, formação e interação com alunos. Mas toda mudança traz desafios.
O objetivo deste artigo é refletir sobre os caminhos possíveis para os profissionais da educação na era digital, propondo estratégias práticas em que os recursos tecnológicos, sobretudo da IA, funcionam como aliados na formação e atuação docente e discente.
As plataformas de ensino remoto e os ambientes virtuais de aprendizagem já fazem parte do dia a dia das instituições de ensino, e não é de hoje. A pandemia da COVID-19 somente acelerou o processo da “educação híbrida”, que combina atividades presenciais e digitais, e os aplicativos educacionais e recursos de IA estão cada vez mais comuns no dia a dia dos alunos. Se por um lado esse movimento evidenciou as desigualdades sociais e em uma disparidade de acesso às tecnologias de informação e comunicação (TICs), por outro nos mostrou o potencial para ampliar o alcance da educação e democratizar o acesso a uma infinidade de conteúdo e diversificar as metodologias de ensino (UNESCO, 2019).
Vivemos uma mudança que não se limita às ferramentas utilizadas em ambientes de ensino (virtuais ou presenciais), mas que envolve práticas pedagógicas e gestão da educação. Mais do que isso, envolve um novo olhar ao/do aluno, que já não tem mais a mesma concepção de aprendizagem, além de uma sensação equivocada de que o conhecimento está em suas mãos desde que tenha acesso à internet. E no centro de tudo, temos o docente, atuando há décadas em contextos diversos de desigualdades estruturais, sociais e culturais, procurando adaptar sua metodologia aos desafios e dificuldades em uma sala de aula, e agora precisa se adaptar também a novos desafios até pouco tempo desconhecidos e muitas vezes impensáveis:
É comum professores e gestores da educação enfrentarem resistência em relação às mudanças na rotina escolar ou em novas metodologias de ensino. Muitos relutam em abandonar práticas tradicionais de uma educação presencial, com interações mais pessoais, lentas e espontâneas, das quais colheram bons frutos no passado. Para muitos, a essa altura do campeonato, seria um passo atrás terem de se adaptar a modelos de ensino mais dinâmicos e personalizados – lembrando que ainda há uma distância entre personalizar e “pessoalizar”.
Mas o que está por trás disso é a falta de familiaridade com as novas tecnologias. Ou, pior, o receio de ser substituído por elas. Além disso, muitos profissionais da educação vivenciam diversos obstáculos à inovação, como uma sobrecarga de trabalho e condições técnicas precárias.
Há sim um grande descompasso entre o que um novo contexto educacional exige e a formação inicial dos professores. Muitos profissionais do ensino ainda possuem competências digitais limitadas e não se sentem preparados para lidar de forma eficaz com as tecnologias em seu dia a dia. Isso é consequência de uma formação inicial desatualizada, ou mesmo da imposição de uma metodologia engessada pelas próprias instituições de ensino.
Recursos tecnológicos devem ser usados com responsabilidade, especialmente quando implicam na gestão de dados pessoais de alunos e no uso de algoritmos. E isso exige dos professores um letramento sobre questões éticas, como privacidade, transparência, viés algorítmico, e nem sempre isso acontece nas instituições de ensino.
Se os desafios são muitos, as possibilidades promissoras que a era digital oferece aos profissionais da educação são incontáveis e mudam o tempo todo. Aqui vamos listar algumas já consolidadas:
Já diria João Guimarães Rosa que mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. É o que chamamos de life long learning. Afinal, ambientes virtuais, como comunidades de prática e redes sociais educativas não são exclusividades dos alunos e permitem a troca de experiências, materiais e saberes entre professores de diferentes contextos. Essa troca favorece o desenvolvimento profissional contínuo e colaborativo (Lévy, 2010).
Se antes os profissionais da educação precisavam desenvolver habilidades como liderança, comunicação, flexibilidade, pensamento crítico, design de aprendizagem e habilidades humanas em geral, hoje podemos acrescentar a análise de dados, o letramento digital, a aplicação da IA e a ética cibernética como as novas habilidades fundamentais (RedThread Research, 2024).
O educador agora assume novas funções. Se ele não é mais o único detentor de um conteúdo, cabe a ele ser o mediador, curador e designer de experiências de aprendizagem. É ele quem ajuda o aluno a ser futuro agente transformador de si e do mundo. É quem idealiza projetos interdisciplinares, o uso de metodologias ativas e criativas e atividades para o desenvolvimento de competências socioemocionais. No melhor dos mundos, sobra mais tempo a esse professor para interagir com seus alunos de uma forma mais dinâmica, criativa, apresentar referências e propor reflexões.
Por outro lado, com a ajuda da IA, ele pode automatizar funções que até pouco tempo eram bem morosas, como aplicar avaliações, fornecer análises de desempenhos, registrar e cruzar dados sobre o aproveitamento dos alunos, oferecer feedbacks personalizados e imediatos, além de auxiliar na identificação de dificuldades específicas dos alunos.
Mais do que isso, as ferramentas de IA podem ser aliadas na criação de ambientes transformativos e jornadas de aprendizagem individualizadas, com conteúdo adaptado ao ritmo, realidade e perfil de cada aluno. Sendo assim, quem torna o ensino mais inclusivo e motivador não é a IA, mas o professor que pensou em seus alunos e orquestrou o direcionamento.
O educador que leciona em mais de uma instituição de ensino, muitas vezes em localidades diferentes, só tem a ganhar com a popularização das plataformas digitais que facilitam o trabalho colaborativo, interdisciplinar e a experiência remota.
Além disso, a possibilidade de uma formação híbrida facilita a inclusão de alunos em diferentes contextos sociais. Se até ontem um curso em Harvard, Yale, Princeton era um sonho distante para muitos, hoje tornou-se uma realidade mais viável, ainda que por uma questão de cronotopo.
Que o futuro da educação aponta para uma maior integração entre tecnologia e pedagogia, isso é inegável. Todos os dias somos inundados por tendências como gamificação, aprendizagens baseadas em dados, uso de realidade aumentada, entre outras experiências, ressignificando interações espaço-tempo.
Se hoje um sistema de gerenciamento de aprendizagem (Learning Management System ou LMS) incorpora dentro uma tecnologia de IA para maximizar o gerenciamento e a entrega de conteúdo, não é difícil imaginar que, em breve, possa haver uma inversão: uma IA que incorpora a função de LMS. O que podemos vislumbrar é um ambiente de aprendizagem com conteúdo personalizado baseado em recomendações, com experiências adaptáveis a um aluno-protagonista, baseado em feedbacks e repertórios anteriores, além da possibilidade de coletar insights a partir de dados sobre seu progresso e engajamento.
A boa notícia para profissionais da Educação é que estamos todos aprendendo juntos com a evolução das novas tecnologias. Então, tudo bem cometer alguns erros de principiante e não ter todas as respostas hoje – quem pergunta é rei! – porque amanhã já haverá novas possibilidades e respostas. O que precisamos amadurecer é nossa mentalidade como educadores e abraçar as práticas de aprendizado contínuo, a colaboração e a experimentação.
Se o profissional da educação está disposto a acolher as novas tecnologias como aliadas, há algumas atitudes que ele pode tomar ontem para aplicar em suas práticas pedagógicas hoje:
A tecnologia digital pode ser uma aliada poderosa para uma educação mais personalizada, inclusiva e significativa. Estamos diante de um horizonte de possibilidades de inovação pedagógica. Contudo, a efetividade dessas inovações não depende de uma nova tecnologia, mas de um olhar ancestral.
Sim, para a Grécia do século V a. C., a mesma em onde nasceu o pensamento educacional socrático, que permanece como um legado duradouro para a educação moderna. Ainda hoje, o diálogo e o questionamento continuam sendo ferramentas valiosas para o conhecimento e a única metologia capaz de promover o pensamento crítico e alcançar verdade. A lição mais importante que Sócrates nos deixou continua sendo a busca pela virtude, a importância de agir com princípios morais e éticos. E esse sim deve ser o propósito da educação.
Por mais que a tecnologia evolua, o diferencial humano ainda é o imbatível e sem risco de "obsolescência”, pois somente um educador é capaz de inspirar alunos a se tornarem pensadores independentes, livres, autônomos e éticos – características essenciais para enfrentar os desafios do mundo moderno. Deixemos à IA a responsabilidade de cuidar da automação para termos mais tempo para sermos humanos.
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